sábado, 9 de dezembro de 2006

«Criar laços»



Foi então que apareceu a raposa:
- Olá bom dia! - disse a raposa.
- Olá bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou e não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira...
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...
- Ah! Então desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que é que «estar preso» quer dizer?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que estar preso quer dizer?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
- Não - disse o principezinho. - ando à procura de amigos. O que é que «estar preso» quer dizer?
- É uma coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...

«O Principezinho» Antoine de Saint-Exupéry

1 comentário:

Gi disse...

Só uma pessoa única como tu é capaz de revelar tal sensibilidade!É o que nos distingue de um animal, nos torna humanos de corpo e alma.Beijoquinhas